segunda-feira, novembro 07, 2005

A Lição do Carangueijo

Lições são tiradas das coisas mais inusitadas. Eu estava na praia, olhando o mar. De repente surge um carangueijo, desses clarinhos, que cavam buraquinhos na areia. Uma criança o vê e corre atrás. Assustado o bichinho corre em direção à água e é engolido pelas ondas.
Vi aquilo e, num impulso, corri à beira pra tentar salvar o pobre animal, pensando que a espécie não sobrevivesse submersa. As fortes ondas encobriam cada vez mais o carangueijo e eu já estava quase dando um esporro na criança quando percebi que o animal não estava lá muito preocupado.
Apesar de estar numa situação difícil notei que o bichinho tinha tudo sobre controle. A cada recuo do mar ele aparecia, firme, grudado na areia, com os olhos erguidos, atentos, esperando calmamente a melhor hora de voltar à terra firme.

Num primeiro momento tentei ajudar, me aproximei para jogá-lo para a areia evitando que se afogasse. Minha tentativa foi completamente frustrada, pois o bicho correu ainda mais para o fundo. Percebi então que eu era a ameaça e não o mar, ou pelo menos o mar era uma ameaça controlável. Então, qual a lição do carangueijo?

Aprendi que diante das ameaças existem umas que são controláveis, ou no mínimo conhecidas e outras não. Logo, assim como fez o carangueijo, o certo é, numa situação de perigo, ir ao encontro da situação mais conhecida, daquela que já tive uma experiência anterior ou que sei mais ou menos como lidar. Apesar de não ser seu habitat o carangueijo procurou o mar, ele sentiu-se mais seguro enfrentando as ondas do que comigo, mesmo tendo eu as melhores intensões do mundo.

Ah, mas como um ser irracional iria saber que eu queria ajudá-lo? Bem, respondo com outra pergunta, como saberemos que alguém quer realmente nos ajudar? Aliás, como sempre disse meu pai, de boas intensões o inferno tá cheio. Melhor mesmo é confiar em meus instintos e correr para o mar, afinal, como bom mergulhador, sei que o mar é mais previsível que muita gente por aí.

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