sábado, novembro 25, 2006

formigas, tags e sapatos chanel

Toc toc toc... a executiva bem sucedida desfila elétrica sobre seu chanel no grês porcelanatto black. Nesse seu vai e vem não tem tempo para observar o resultado das duas horas diárias de academia nem a bela escova que fez no cabelo pela manhã, refletidos no piso que mais parece um espelho. Ela está desenfreada para não perder um prazo, para atingir uma meta que não é sua, aumentar os lucros e diminuir os custos de uma empresa que não lhe pertence. Deixar os cofres alheios mais cheios é seu trabalho, sua vida. 24 horas por dia com o celular ligado, on line o dia todo via palm, blackberry, wireless. Seu cérebro consome fosfato numa curva ascendente, no mesmo ritmo que absorve cafeína, a droga do momento que substitui a nicotina, abolida no último ano, com ela foram cortadas aqueles que não aderiram à nova exigência e não conseguiram abandonar o hábito.
Giovanna Lavoro, descendente de italianos que vieram para o Brasil com o mesmo propósito: trabalhar, fazer fortuna e continuar trabalhando, sem ter nem tempo para usufruir dos frutos do seu trabalho.

Tic tac, tic tac, tic tac. O Tag Heuer Carrera rege a vida do executivo work-a-holic, ávido por trabalho, compulsivo, estressado imaginando mil e uma formas de ganhar mais dinheiro, empurrando seus produtos para as pessoas que ainda não têm necessidade deles. 12:00, hora de tomar a nova droga para o coração, no último check up foi diagnosticado uma arritmia cardíaca que em pouco tempo pode tornar-se mais séria. “As drogas estão aí para isto mesmo: consertar os efeitos da falta de alimentação e descanso, impossíveis nos dias de hoje” diz ele a quem lhe alerta. Volta e meia, quando os ponteiros do Tag encontram-se na posição mais alta da coroa do relógio ele se lembra que também é hora do almoço, mas isto muitas vezes é um luxo a que ele não pode se dar ao prazer, mesmo que seja uma singela maçã.
A vida de Ricardo Stark é assim. Ele constrói empresas, capta recursos, ajuda gerar empregos, mas também suja as mãos com propina paga ao governo pela construtora a qual representa, no caso de um condomínio de luxo em uma área que do dia para a noite deixou de ser de preservação.

Ha ha ha. Riem à toa donas de casa, jovens, senhores, profissionais liberais. É a nova novela das sete com seu humor pastelão escrachado, que na falta de um livro para ler, um papo para bater é a melhor opção de entretenimento e distração para cérebros preguiçosos.

............... O som que elas fazem enquanto cavam, carregam e criam incessantemente é imperceptível aos ouvidos humanos, mas elas estão lá. Formigas, exemplos máximos da coletividade e do trabalho na natureza. Elas precisam abastecer o formigueiro para o inverno e assim, dar a lição ao gafanhoto preguiçoso. É preciso atingir a meta, é preciso deixar a rainha satisfeita, não importa se passar por cima das outras seja necessário. O trabalho tem que ser feito, está escrito no código genético, mesmo sem tag heuer ou sapato chanel, o prazo tem que ser cumprido.

E a vida segue num ritmo frenético e acelerado em direção ao colapso. O planeta têm seus recursos consumidos num ritmo nunca antes visto, muitos beiram o esgotamento. Num ímpeto cada vez maior de levar comida ao formigueiro, seres humanos perdem sua identidade à medida que aumenta seu desejo por mais. O trabalho exagerado assume a forma humana, toma lugar da liberdade individual e transforma todos numa sociedade comum de formigas, onde umas passam sobre as outras. O prêmio: mais trabalho, mais responsabilidade e menos tempo para contemplar o que está ao seu redor.

Comments:
Após postar esta mensagem, o blogspot deveria continuar marcando 0 comments. Afinal, vim aqui dizer que este post é sem comentários - é sensacional.
 
Nossa...me vi neste post...é assim mesmo...o mundo corporativo nos toma todo o tempo que temos. Nos toma ou deixamos que ele tome??
É pra se pensar se não somos nós mesmos que nos sujeitamos a passar por tudo isso e esquecemos que a vida é mais que note, celular, sala de reunião, metas, lucros...
Gostei da sua análise.
Bjs
 
Puxa, estava pesquisando sobre sapatos chanel, numa tentativa de desintelectualizar um pouco, quando tropecei nesta composição e me surpreendi com a felicidade de não querer um chanel prá isto! Bela análise, a sua!
 
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