quinta-feira, janeiro 18, 2007

sopa fora do prato


Quando criança sempre ouvia de minha mãe para tomar cuidado ao tomar sopa ou ao comer molho de tomate e não me sujar. Certa vez levei uma bronca ao deixar cair bolo sobre uma toalha novinha, eu sujara a toalha, manjara, inutilizara. Lembro de ter despertado para um fato. O bolo, na fôrma ou na travessa é bolo. Ao ser cortado e levado ao prato ainda é bolo, um pedaço de bolo. Porém o mesmo bolo, fora do prato, caído na toalha da mesa deixa de ser bolo e vira sujeira, resto, migalha, porcaria, lixo. Dependendo do lugar onde está é uma coisa ou outra.

Hoje, ao conversar com um colega sábio, tomei consciência de outro fato: a minha antiga constatação também vale para gente, sim. As pessoas enquanto numa fôrma, num prato, são consideradas pessoas. Fora são descartadas, são sujeira, lixo.

Enquanto fazem parte de um padrão, enquanto não contestam, enquanto seguem umas às outras, as pessoas ainda são pessoas, dentro da sociedade.
Entretanto, ao sair de determinado padrão, ao tornar-se diferente, ao ver o mundo com outros olhos a mesma sociedade que momentos atrás a admirava agora lhe descarta, facilmente. Assim pessoas são jogadas fora, viram pó, entram para as minorias, são esquecidas.

Desde cedo, a escola molda as crianças para seguirem normas fixas. A hora de acordar, de dormir, comer, estudar. O modo de se vestir, falar, tratar os colegas, pentear os cabelos. Mentes inquietas, infinitas, sedentas por descobertas e conquistas são engarrafadas, vedadas, lacradas e rotuladas. Umas iguais as outras como no filme The Wall, dirigido por Bob Gueldorf e baseado na obra do Pink Floyd, com seus rostos deformados e idênticos tapando a personalidade emoldurada (We dont need education, We dont need thought control).

O orgulho da família toca piano, não dá trabalho algum, comporta-se como “gente grande”, depois cresce, namora, casa, vira pai de família, vai à igreja, é funcionário público de carreira promissora.

Se ele, ao contrário, tivesse sido ele mesmo, se não tivesse sido moldado, castrado, teria pensamentos próprios, descobriria o mundo através dos seus próprios olhos, teria experiências suas, viveria, seria verdadeiramente feliz. Se tivesse seguido seu coração e não o que a família e a sociedade queriam teria sido a ovelha negra, a sujeita do bolo, a mancha na camisa. Teria sido livre, teria sido ele mesmo. Teria descoberto a verdade, sua própria verdade e não seria sido mais um.

Comments:
Amigo...adorei o texto...é bem por aí mesmo
beijão pra ti e pra Deza
Keka
 
Postar um comentário



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?